Era uma tarde cinzenta, típica de São Paulo. Antes de chegarmos ao local, já identificamos diversos grafites espalhados pelas ruas. Estamos na Vila Flávia, um lugar comum, periférico, igual a vários bairros da capital.
E lá vamos nós pela viela! Colorida, misturando desenhos e tijolos.
Depois de uma passada rápida pelo ateliê, vamos visitar a Galeria a céu aberto. As telas são as paredes das casas, e tem de todos os tamanhos. As nossas guias são Ana e a Leila, integrantes do grupo OPNI, formado em São Mateus, zona leste de São Paulo, em 1997.
O coletivo que conta com diversos colaboradores foi criado com o intuito de levar arte para as pessoas do bairro e também mostrar a arte do bairro para o mundo. E deu certo. Hoje eles têm reconhecimento em nível mundial, participando de festivais internacionais como o 45º “New Orleans Jazz & Heritage Festival”, representando o Brasil no grafite, e grafitando para grandes marcas e até programas de TV.
Mas, essa exposição não os tira de suas raízes e propósitos. Melhorar a visão que as pessoas têm da Vila Flávia é um deles. Toddy e Val são os fundadores que permanecem até hoje, mas muitos já passaram por ali. Ana nos conta que alguns deixaram o grupo para arrumar um emprego “normal”, outros se mudaram e ainda outros morreram. Mas acredita que o grafite já transformou a vida de muitos.
Aceitação dos moradores
Nas ruas, é visível a admiração e respeito que os moradores têm pelos artistas. Ana disse que o número de crimes na região diminuiu depois do projeto. “Não vou ser hipócrita de dizer que diminuiu cem por cento, mas diminuiu bastante. As pessoas estão mais conscientes”.
Ana e Leila dizem que a princípio existia maior dificuldade de aceitação por parte dos moradores do bairro com a arte, já que o grafite sempre esteve estigmatizado e ligado ao vandalismo, mas com o tempo foi se inserindo na comunidade, que hoje até pede para receber a arte em seus “murais”. Enquanto caminhávamos, algumas moradoras que estavam na porta de suas casas conversavam com as meninas e pediam para que fosse feito um novo grafite na sua rua. “Desenha uma menininha bem bonitinha”, falava uma. “É desejo de grávida”.A “galeria a céu aberto” é um projeto permanente que recebe todo mês uma nova intervenção artística. E os artistas vêm de vários lugares. Algumas referências do grafite no Brasil, como Bonga, Chivitz, Minhau, Nitros, Tika, Anarkia entre outros, e também referências internacionais, como Shalak (Canadá), Shonis (Argentina), Aspi (Argentina), Baster (Chile), Sato (Espanha).
O coletivo também ajudou a criar outros projetos como a ONG São Mateus em Movimento, que segundo as organizadoras, foi criada para levar cultura aos jovens e adolescentes do bairro. "A gente ensina grafite pra eles, além de música e teatro. O espaço da ONG foi doado por uma moradora daqui".
Mas, nem tudo são flores. Por mais que tenha aumentado o reconhecimento por conta de grandes trabalhos, o grafite ainda não tem o seu devido valor. “Ainda falta reconhecimento do poder público”, comenta Leila. Já que o OPNI não possui um patrocínio fixo, depende de contratos esporádicos para se manter com a arte. “Existem momentos muito bons e outros mais fracos...”.
Em alguns momentos, o grupo tem que adequar a linguagem de seu trabalho ao público que irá recebê-lo, o que talvez não seja o ideal, mas uma forma de se manter na selva de pedra. “Às vezes alguém diz: 'vocês só pintam negros, fazem um trabalho só para negros, isso é preconceito! ’ Mas a gente retrata o que a gente vê, e a maior parte da periferia é negra! Então a gente mostra a nossa realidade...”.
Depois de descobrirmos toda a beleza gravada nas paredes da periferia, voltamos ao ateliê para concluir nossa reportagem. O local é pequeno, modesto e todo cheio de grafites (até na geladeira!). Ana e Leila mostram com orgulho os quadros e trabalhos que o grupo realizou durante os anos. Por fim, o Grupo OPNI transmite a ideia de que, apesar das dificuldades financeiras, é prazeroso ver seu trabalho sendo reconhecido. “É muito bom fazer o que a gente ama e ter nosso trabalho recompensado”, declara Ana.
Comentários
Postar um comentário